No artigo “Leite vegetal pode ser chamado de leite?” nós falamos sobre os países que, a pedido da indústria de laticínios, proibiram por lei que o termo “leite vegetal” apareça nas embalagens de produtos veganos. Aqui no Brasil, nossa ministra da Agricultura e líder da Bancada Ruralista, Tereza Cristina, criou um Projeto de Lei (PL) que estende essa regra para os “derivados”, proibindo também termos como queijo e iogurte vegetal.

O texto do PL começa assim:

Art. 1º Nas embalagens, rótulos e publicidade de alimentos, a palavra “leite” fica exclusivamente reservada ao produto da secreção mamária das fêmeas mamíferas, proveniente de uma ou mais ordenhas, sem qualquer adição ou extração.”

E continua com “são exclusivamente reservadas aos produtos lácteos as seguintes palavras ou expressões:  queijos e seus derivados; manteiga; leite condensado; requeijão; creme de leite; bebida láctea; doce de leite; leites fermentados; iogurte; coalhada; cream cheese; e outras admitidas em regulamento.”

A Bancada Ruralista parece estar bem preocupada, né? Como vegana, é de se esperar que eu não concorde com o que a ministra propõe no seu Projeto de Lei. E tudo bem, cada um com seu posicionamento. Mas, como jornalista, tem um ponto específico no PL que me incomoda demais porque é fake news – e ninguém aguenta mais isso.

A ciência, através de dados, é a ferramenta mais precisa que temos para compreender a realidade. E só com uma visão mais clara e abrangente do mundo (entendendo o que melhorou, piorou…) somos capazes de cocriar um futuro que, de fato, seja melhor. Mas quando alguém interpreta os dados, é normal que faça (às vezes até sem perceber) recortes de acordo com sua percepções e convicções. Isso é humano. Só que isso vira antiético quando alguém intencionalmente manipula e omite informações num documento oficial para facilitar a aprovação de uma lei que serve aos seus interesses.

E foi isso que a ministra fez.

Como justificativa do seu Projeto de Lei, ela citou um estudo da Agência Francesa para Alimentos, Meio Ambiente, Saúde Ocupacional e Segurança (ANSES). O texto oficial, apresentado pela Tereza Cristina ao Congresso, diz: “A Agência francesa declarou que crianças com até um ano que são alimentadas com “leite” vegetal (leite não oriundo de vaca ou fórmulas infantis) como alternativa ao leite materno, têm maior risco de ficarem subnutridas, sofrendo desordens metabólicas, o que pode levar a complicações infecciosas e até à morte da criança”.

Mas isso não é verdade. O que o estudo concluiu é que crianças de até um ano alimentadas com leite de vaca correm os mesmos riscos que as alimentadas com leite vegetal. Inclusive, o título do artigo é “ANSES enfatiza os riscos associados à alimentação de bebês com outras bebidas além do leite materno e substitutos do leite materno”. Ou seja, tanto bebidas lácteas quanto à base de plantas, como não contêm todos os nutrientes que os bebês precisam, podem apenas complementar a alimentação deles. Segundo o estudo, “somente as fórmulas infantis à base de proteínas animais ou vegetais podem substituir a amamentação”.

Ué, fórmulas vegetais? Sim, elas existem há anos e são fabricadas inclusive por algumas gigantes dos laticínios, como Nestlé e Danone. Elas foram pensadas principalmente para bebês alérgicos à proteína do leite de vaca: como essa é a alergia alimentar mais comum no mundo, representa uma fatia significativa do mercado de suplementos infantis – você pode ler mais sobre o assunto no artigo “Contém glúten? Contém lactose? Contém confusão.” – Mas, com a explosão do veganismo, essa fatia, que antes era formada por consumidores que não podiam tomar leite de vaca, cresceu e se transformou num mercado próprio, que agora é composto por pessoas que escolhem não consumir leite animal. Como exemplo, a Nestlé lançou recentemente a versão vegana do famoso Leite Ninho com o slogan “para as famílias dos brasileirinhos que priorizam alimentos de origem vegetal” – legal, né?

E é óbvio que leites vegetais não substituem o materno. Eles nunca foram vendidos com esse propósito. A ministra não precisava nem citar um estudo francês porque essa informação está exaustivamente clara no Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, feito pelo Ministério da Saúde e disponível para todos na internet. Segundo o guia: “o leite de vaca não fornece para a criança todos os nutrientes de que ela precisa. As quantidades excessivas de proteínas, sódio, potássio e cloro do leite de vaca podem sobrecarregar os rins da criança nos primeiros meses de vida. As proteínas deste leite têm digestão mais demorada, possui quantidades insuficientes de vitaminas A, D e C. Além disso, o ferro nele contido não é tão bem aproveitado pela criança quanto o do leite materno, podendo levar à anemia.”

A justificativa do PL da ministra da Agricultura caiu só com uma lida rápida no Guia Alimentar. Inclusive, nosso Guia aborda bastante a dieta vegana e é reconhecido como um dos 4 melhores do planeta.

Mas você não vai acreditar: adivinha quem criou, no final de 2020, um projeto para modificar todo o Guia? Ela, a própria Tereza Cristina. Essa é mais uma história cabulosa envolvendo a ministra – como se não tivéssemos políticos em situações bizarras o bastante, né? Bem, vamos acompanhar (com toda a calma e plenitude possível) as cenas dos próximos capítulos.

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