Vamos começar com um sincerão: se você não anda preocupado com o futuro do planeta (e, claro, da humanidade), não deve estar prestando muita atenção.

Ok. É justo dizer que os dados mais alarmistas sobre escassez de recursos e espécies ameaçadas já circulam há pelo menos 30 anos – e isso, no limite, muitas vezes faz aquilo que é absurdo ficar com cara de “normal”. A perplexidade vai dando lugar a uma auto-anestesia. Uma gambiarra do inconsciente pra evitar o surto, o caos e a agonia (e taí a experiência de um ano de pandemia que não me deixa mentir).

Mas, com tanta gente pesquisando o assunto há anos, já podemos assumir com segurança que grande parte da destruição ambiental é consequência da nossa feracidade pra consumir, nossa inabilidade para descartar, e nosso constante investimento em indústrias que emitem gases poluentes – tudo mais ou menos parte da nossa rotina. O que é ao mesmo tempo aflitivo, mas também promissor, pensa bem: se a gente piorou esse planeta nas pequenas escolhas diárias, é razoável pensar que dá pra virar o jogo do mesmo jeito.

Tá, isso você já sabe. Mas ainda não sabe como/ o quê mudar.

Digamos que você ama as florestas, mas não sabe regar uma planta, valoriza produtos orgânicos, mas não quer penhorar os rins a cada compra de mês, respeita o veganismo, mas seria muito radical na sua vida, e sonha em viver de um jeito mais conectado à natureza, mas não quer doar todos os seus pertences e morar numa ecovila – tá tudo certo. Sério. Tem muita mudança pequena que pode fazer diferença. É como diz aquele lema do carnaval: “se organizar direitinho, todo mundo tran  ops, salva o planeta”. Um pouquinho todo dia.

Então prepara o copy paste que hoje é dia de listinha:

  1. Eu preciso disso? (ou pelo menos serei MUITO feliz com isso?)

Tem uma coisa que é tão óbvia que quase acaba não sendo dita: a melhor maneira de não gerar resíduo é simplesmente não comprar. É fazer aquela perguntinha filosófica: isso é útil de verdade? Ou pelo menos vai me deixar muito feliz? E por quanto tempo? Nem sempre isso evita a compra, mas certamente garante uma aterrizada imediata pra ajudar a detectar a diferença entre desejo e necessidade. E tudo bem eventualmente comprar o que não é necessário, desde que ele seja “desejável” por muito tempo. E quando não for mais útil ou querido, como será descartado? (é nessa hora que produtos sem embalagem ou embalados em papel, por exemplo, já dão uma colaborada).

2. Descartáveis = virando lixo em 3, 2,…

Tudo o que é descartável pode ser entendido como pré-lixo. Nasce prontinho pra ser jogado fora. E, na maioria das vezes, foram invenções celebradas numa época em que os recursos pareciam infinitos: fraldas, absorventes, canudos plásticos, pratinhos de festa – grandes novidades para tornar a vida mais prática…nos anos 70, 80.

Hoje, essas mesmas invenções convivem com outras, bem mais condizentes com nosso tempo (fraldas reutilizáveis, coletor menstrual, canudos de papel/ vidro/ metal – lembrando que na maioria das vezes ninguém com mais de 5 anos de idade costuma precisar de canudo, né?).

Levar sua bolsa para ir ao mercado, comprar a granel, evitar o saquinho plástico pra pesar alimentos, optar por shampoos e sabonetes em barra, limpar com pano em vez de lenços umedecidos, lavar louça com escova de cerdas naturais em vez de esponja – calma que tudo isso vai ficando natural aos poucos. E, de bônus, mais barato também.

3. Reducionismo: pra você que quer mudar, mas despacito

Se você não planeja cortar a carne e os produtos de origem animal da sua vida, mas ainda assim quer fortalecer a causa, pronto: já existe uma categoria intermediária ultra inclusiva, o reducionismo. O nome é auto-explicativo: propõe a diminuição de consumo desses produtos, seja qual for seu hábito. É perfeito tanto pra quem come carne todo dia, como pra quem diz “ah, mas só como de vez em quando” – não importa muito seu ponto de partida, a ideia aqui é tentar baixar sua média. Qualquer diferença impacta diretamente numa cadeia produtiva que desperdiça muita água, emite muito CO2 e devasta solos (e olha que nem falei dos bichos).

Um bom exemplo de reducionismo é o movimento mundial “segunda sem carne”, que tem Sir Paul McCartney como garoto propaganda. Pra aderir, basta  se comprometer a passar toda segunda-feira sem bicho nenhum no prato.

4. Pode reparar

Mala de rodinha. Torradeira. Ventilador. Panela. 

O que você faz quando um deles dá defeito? 

Na próxima vez, tente não cair na tentação de comprar um novinho (que, cada vez mais cedo, há de escangalhar também) e vê lá se não tem uma guerreira lojinha de reparo perto de casa – ajuda o planeta e ainda fortalece o pequeno comércio.

5. Fast fashion, fast destruction

Junto com a indústria pecuária, a da moda é uma das maiores responsáveis pela degradação ambiental. Como se não bastasse o conceito em si – moda é uma coisa feita pra expirar e ser substituída por outra – a cadeia produtiva ficou conhecida por relações trabalhistas super exploratórias, especialmente com a atuação das fast fashion. Por isso, sempre vale procurar ou por peças usadas (os brechós estão cada vez mais bacanas) ou por peças mais naturais (tecidos não sintéticos) de marcas autorais/artesanais, que você consegue rastrear a procedência. Em outras palavras: aquela brusinha que 20 milhões de habitantes do planeta têm igualzinha e que só vai aguentar três lavagens deveria ser a imagem ilustrativa do barato que sai (muito) caro. 

6. Não compre o kit ambientalista

Vai que você leu tudo isso e ficou no maior gás de mudar a vida toda. Você dá aquela escaneada na sua cozinha, no seu banheiro, vê que passou anos comprando tudo errado: quer mudar seu detergente, sua pasta de dente, seus talheres e lâmpadas incandescentes (talvez uma lágrima lhe escape e você até repense a ideia da ecovila). 

Calma.

Volte para a dica #1 e veja se você precisa mesmo de um starter pack. Veja se precisa meeeesmo comprar um copo dobrável pra levar na bolsa. Ou discos de tecido cru para retirar a maquiagem. Ou aquela composteira jumbo que não cabe no seu apartamento. 

Porque mesmo na virtuosa prateleira de produtos sustentáveis tem coisa com altíssimo potencial de virar…traquitana. E nenhum item de consumo é de fato consciente se não for consumido. Na maioria das vezes, um estilo de vida com menos desperdício começa com soluções improvisadas, usando o que você provavelmente já tem em casa (e o instagram e o pinterest estão cheios de inspiração sobre a vida zero waste que podem dar uma força nessa transição).

7. Rapidinhas, pra acabar (dicas finais pra quem já quer botar em prática):

  • Amasse todas as latinhas que usar – isso impede que bichos marinhos fiquem presos dentro dela, caso a latinha vá para o mar.
  • Junte tampinhas plásticas – são muitas iniciativas que fazem o reaproveitamento delas.
  • Tente implementar a coleta seletiva do lixo no seu prédio, caso não tenha.
  • Apoie o mercado vegano – mesmo que não seja vegano, experimente de vez em quando trocar o que você já conhece por um produto parecido, mas sem origem animal. Isso ajuda a categoria a ganhar força e, quem sabe, mudar mesmo o mundo – ou, pelo menos, a sua vida 🙂

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