Yvon Chouinard disse que a aventura começa quando tudo dá errado. Se eu fosse um ingênuo egocêntrico, diria que eles estava se referindo à minha iniciação no ativismo.

 

Muitas vezes, eu vasculho minhas memórias na tentativa de achar alguma história bonita que justifique a sensação de dever de proteger o meio ambiente que sempre tive. Eu queria contar sobre quando um animal silvestre me escolheu como amigo e se aproximou sem medo, ou quando eu comi o fruto de uma árvore que eu mesmo plantei, mas nada disso aconteceu. Então, vou contar como deixei de focar em diminuir meu impacto negativo no planeta, e passei a trabalhar no aumento do impacto positivo que crio.

 

Em 2011, eu era um jovem vegano que achava que tinha chegado no meu objetivo final de causar o menor impacto negativo possível com minhas escolhas de consumo. Afinal, sempre foi evidente que a exploração animal não só utiliza mais recursos naturais, como também envolve uma gigante questão moral em relação à forma como animais não humanos devem ser tratados. Então, me afastar das indústrias que usam o planeta como se fossem turistas mal educados parecia ser o topo da montanha, mas descobri que era só a ponta do iceberg.

 

Quanto mais eu pesquisava sobre veganismo e entendia que já era um grande avanço, mais eu sentia que poderia fazer ainda melhor. Se as pessoas estão comendo cada vez menos carne, menos animais morrem. Certo? Sim, mas, infelizmente, tem mais número nessa conta. O raciocínio faz sentido se não considerarmos que cada vez mais, o mundo está com mais pessoas. Então, eu decidi agir para impedir que animais morressem, e escolhi o Japão como ponto de partida.

 

Todo ano, na cidade de Taiji, um grupo de caçadores tem a permissão do governo para capturar cerca de 2000 golfinhos. Enquanto alguns desses animais são vendidos para entreter pessoas em parques marinhos e aquários, a maior parte é morta para ter a carne vendida, apesar de ser considerada tóxica por conta da grande quantidade de mercúrio. Ativistas que estiveram lá, antes de mim, conseguiram libertar alguns golfinhos que foram capturados pelos caçadores, mas isso alertou as autoridades de tal modo que Taiji passou a ser fortemente policiada. Além do novo e imenso investimento no treinamento e policiamento que o governo assumiu, os próprios caçadores começaram a gastar dinheiro para bloquear áreas de acesso que permitissem que ativistas se aproximassem e pudessem fotografar o terror que os golfinhos enfrentavam. Dessa forma, ficou evidente que a simples presença no local já afetava a caça, pois, além de custar uma grana para o governo, os caçadores tinham menos tempo para capturar e matar os animais, já que precisavam erguer barreiras e bloquear acessos continuamente.

 

Como libertar golfinhos se tornou algo impossível de se conseguir com tanta vigilância, passamos a nos movimentar de uma forma que mantivesse o governo e os caçadores sempre utilizando seus recursos para nos pegar em flagrante, mas nunca fazíamos nada ilegal, então não podiam fazer nada conosco. Um dos momentos em que tive mais sucesso (e crises de gargalhada) com essa estratégia, foi quando a guarda costeira foi enviada para me interceptar em um bote inflável.

 

Assistir à caça de golfinhos se tornar cada vez menos atrativa para o governo que a permite e para os caçadores que a praticam é uma das poucas alegrias que se pode ter em Taiji. Mas saber que vidas foram poupadas porque eu decidi tomar uma atitude, me deixa feliz em qualquer lugar que eu esteja.

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