Essa é a história de como uma mudança de atitude acabou criando oportunidade de aprendizado (e salvando uma mariposa).

Outro dia, eu tava deitado no sofá da minha sala, vendo alguma coisa no celular, quando uma mariposa pequenininha entrou pela janela. Na hora, meu pensamento foi interrompido pela imagem do meu chinelo, que serviria para esmagar a coitada em alguma parede. Mas esse raciocínio viciado logo foi substituído por uma dúvida que mudou o destino daquela criatura: Se fosse uma borboleta, eu também a mataria? Esse auto questionamento é fruto de um trabalho que faço, há anos, em um ambiente que nada tem a ver com mariposas nem borboletas, mas com a forma como enxergamos a vida, de uma forma geral.

Em 2013, pouco depois de concluir minha primeira formação em mergulho, eu fui convidado para participar de uma operação de limpeza subaquática na Praia da Urca, no Rio de Janeiro. Éramos quatro mergulhadores, separados em duas duplas, e fomos para debaixo da superfície com o objetivo de encher os sacos de coleta com lixo retirado da água, e cerca de 30 minutos depois, saímos pela praia com a missão cumprida. Enquanto amontoávamos o lixo na areia para tirarmos uma foto, algumas pessoas que estavam na praia se juntaram para parabenizar o que havíamos feito pelo meio ambiente, mas tinha um cara que só olhava tudo aquilo de longe. Não longe o suficiente para não revelar a expressão de preocupação que ele tinha na cara, se aproximou perguntando se podia nos mostrar algo, enquanto abaixava para pegar uma lata de alumínio que estava na pilha de lixo. Quando ele abriu aquilo com uma faca, um pequeno siri que tava dentro começou a se mexer freneticamente, e entramos em modo de contenção de danos.

Esse sujeito era o educador ambiental Ed Bastos, que adotou a Praia da Urca como seu laboratório, e, alguns anos depois do nosso primeiro encontro, me adotou como seu aprendiz. O Ed é uma espécie de guardião da praia, e, há mais de 30 anos, mergulha lá, mas nem sempre sua presença foi positiva para o ambiente. Ele costumava capturar animais marinhos para comer ou vender para aquaristas, até que foi percebendo que para manter essa fonte seria preciso cuidar dela. Assim, foi retirando da água o lixo que encontrava, sempre devolvendo os animais que estivessem presos aos resíduos e não tinham qualquer valor comercial. Pouco a pouco, ele foi se dedicando, cada vez mais, a proteger aquele ecossistema e, cada vez menos, a explorá-lo.

Essa experiência fez com que ele conhecesse cada centímetro quadrado daquele ambiente e todos os animais que nele habitam: Frades, baiacus, cavalos marinhos, estrelas do mar, caranguejos, ouriços, polvos, tartarugas, pepinos do mar, planárias e muitos outros que acharam lar no lixo marinho. Além disso, ele percebeu que os animais não ficavam só presos no que era jogado na água, mas escolhiam alguns resíduos sólidos para se associar. Assim, o Ed deixou de ser um explorador e passou a ser um protetor da Praia da Urca, dando aulas de educação ambiental para escolas e universidades, além de promover mutirões de limpeza consciente com resgate de animais marinhos.

Nesses mutirões, é comum ver frequentadores da praia se surpreendendo com a abundância e a diversidade da vida marinha que existe naquele pequeno canto da Baía de Guanabara. Outros se surpreendem com a dedicação que o Ed tem em retirar do lixo um animal que mede menos de 1cm, e colocá-lo em uma pedra específica que ofereça proteção e chance de sobrevivência para ele. Seja um minúsculo camarão ou uma enorme baleia, cada animal tem um papel a cumprir na manutenção de um ecossistema local que interfere na esfera global, e a espécie de cada um deles pouco interessa.

Existem preconceitos estruturais que, aos poucos, vamos percebendo em nossa sociedade, e do racismo ao machismo devemos nos atentar também ao especismo, que nos faz enxergar algumas espécies mais dignas de respeito e proteção do que outras. Procurar sermos versões melhores de nós mesmos é um ótimo exercício, e foi isso que salvou a mariposa que entrou na minha sala.

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