Em 2000, dois satélites da NASA começaram a coletar dados e imagens da Terra para registrar como seria a transformação das áreas verdes nos próximos anos. Um dos sensores ultra tecnológicos usados, o MODIS, tirou diariamente 4 fotos de toda a superfície terrestre.

No final de 2017, os pesquisadores já tinham um super “antes e depois” tipo aqueles das celebridades. Só que no caso do nosso planeta, o depois é bem pior do que o antes. Né? Não! Assim como os famosos, a Terra também deu um “up” no seu visual – e ficou super natural.

Eu sei que parece pegadinha: com a enxurrada de notícias sobre a destruição sistemática das maiores florestas (no Brasil, Indonésia, Congo, Rússia), como o mundo estaria mais verde? Quando o estudo foi publicado, no início de 2019, meu estômago revirou só de pensar em ver o estado atual da nossa casa.

Mas pode repetir “ufa” comigo porque a notícia foi boa. Os pesquisadores da NASA descobriram que, na verdade, a Terra está 5% mais verde do que estava em 2000. Eu sei que a porcentagem parece pequena, mas equivale a toda a cobertura vegetal da Amazônia. Melhorou, né? Nesse tempo, nasceram aproximadamente 2 milhões de km2 de área verde extra por ano.

Ficou surpreso? Então segura essa: o “upgrade” não aconteceu graças a países como Noruega e Dinamarca. Eles nem têm esse espaço todo. As áreas verdes do planeta aumentaram principalmente por causa dos dois países mais populosos do mundo: China e Índia. Sim, bizarro, porque (junto com os EUA) eles são também os maiores poluidores. Mas é exatamente por esse e dois outros motivos que eu trouxe o estudo de 2019 (jornalista normalmente gosta de notícia fresquinha) pra nossa conversa:

Primeiro porque não rolaram muitas coisas boas em 2020 (obrigada @naveia por chegar salvando na reta final!)

Segundo porque, apesar do jornalismo sério ser cada vez mais necessário, ele muitas vezes falha em reportar a realidade (eu escolhi essa profissão pra minha vida, mas sou bem crítica em relação aos papéis super tendenciosos que alguns veículos têm assumido no debate público.) É natural pensarmos que, por termos um acesso gigante a informação hoje em dia, estamos melhor informados. Só que, na verdade, nossa visão de mundo tem estado bem equivocada.

 

Isso é o que Hans Rosling, médico e cientista sueco, fala no seu livro “Factfulness”. Ele fez 13 perguntas gerais sobre educação, saúde, renda e pobreza para 12 mil pessoas de diferentes países e profissões (como executivos de multinacionais, professores, políticos, acadêmicos, jornalistas, médicos – pessoas “altamente instruídas”, com influência e poder de decisão). 15% erraram todas as 13 questões e a média geral foi só de 2 acertos. 

Uma das perguntas era “nos últimos 20 anos, a proporção da população mundial vivendo em extrema pobreza quase dobrou, ficou mais ou menos igual ou caiu pela metade?”. Só 7% acertaram que caiu pela metade. Essa próxima bem difícil: quantos por cento das crianças com menos de 1 ano já foram vacinadas no mundo? A resposta é 80%!!!

Enfim, Rosling reforçou que testou o “alto escalão” da sociedade (como ele descreveu) para mostrar que pessoas poderosas podem tomar decisões baseadas em visões distorcidas e desatualizadas. E aí, inevitavelmente, pensamos que o mundo tá pior do que realmente está. As coisas ruins estão sendo mais noticiadas, não necessariamente acontecendo em maior quantidade. Muuuito precisa mudar, mas, querendo ou não, estamos no momento mais próspero da humanidade, com mais qualidade de vida, saúde e direitos – e agora precisamos expandir essas conquistas para os outros seres.

Agora cheguei no último (e acho que principal) motivo de ter vindo falar do estudo da NASA aqui: nós precisamos lembrar que o mundo não é maniqueísta. Não existe nada que seja 100% bom ou ruim, totalmente certo ou errado, porque a realidade é complexa demais pra ser resumida a dois opostos. Alguns rótulos nos ajudam a compreender essa vida doida, mas enxergar as coisas como preto ou branco limitam as possibilidades, diálogos e soluções, porque a magia normalmente acontece nas áreas cinzas.

Deu pra entender o que eu quis dizer? Eu, por exemplo, sou super consumista 🙁 Isso não anula meu ativismo pelos animais, mas é uma incoerência que (depois de muita terapia) reconheci e tô tentando melhorar. (Por favor insira aqui seu defeito pra eu não me sentir sozinha. Não conto pra ninguém). E a China que está replantando árvores é perfeita? Nossa, não. Nem de longe. 

Mas você sabe quando as coisas costumam mudar? Quando a situação aperta ou, pra usar um termo ambiental, quando fica insustentável.

E foi isso que aconteceu. A China percebeu, lá nos anos 90, que 37% do seu solo já tava erodido e que mais de 2 milhões de chineses morriam todo ano por respirar ar poluído demais. Então, para tentar conter essas questões, o que rolou foi o seguinte:

 

Em 1999 o governo chinês começou a implementar programas ambiciosos para conservar e expandir suas florestas: em 2013, o país já tinha reflorestado 28 milhões de hectares. Para visualizar: a Amazônia perde cerca de 500 mil hectares por ano. Então, naqueles 14 anos, a China plantou o equivalente a 56 anos de “desmatamento Amazônico”. 80% das florestas foram replantadas com árvores jovens, nativas, de crescimento rápido e que podem ser cortadas de forma sustentável. Nos outros 20% foram cultivadas árvores usadas como plantas medicinais na tradição chinesa.

Esses projetos custaram mais de 19 bilhões de dólares. O financiamento foi público, mas foram os agricultores locais que executaram a maior parte do reflorestamento, recebendo sementes, orientação e vários incentivos fiscais. O governo chinês foi bem pragmático e eficiente na implementação dos programas porque entendeu que o país não podia se dar ao luxo de perder mais solo, já que suas demandas energéticas e alimentares são as maiores do mundo.

 

No caso da Índia, a expansão do verde aconteceu principalmente (82%) pelo aumento das áreas agrícolas, e não aumento das florestas. O país viu que os terrenos estavam degradados e os transformou em áreas muito mais produtivas através de sistemas agroflorestais! Pouca gente sabe, mas o que aconteceu lá foi bem bonito.

A agrofloresta é uma “tecnologia” milenar que foi esquecida quando as monoculturas entraram em cena – não sei da onde tiramos a ideia de plantar 50 campos de futebol com um único alimento, porque natureza nunca fez isso. Já a agrofloresta replica a inteligência da terra. Agora ela tá sendo retomada, e eu arrisco dizer que ela, junto do veganismo, vai salvar o mundo.

Agora, sabe qual o mais interessante de tudo isso?

Em 2017, os dois países tinham praticamente a mesma área de terras sob cultivo que tinham lá atrás, em 2000. Mas, por causa dessas mudanças, a produção total de alimentos deles aumentou 40%. A produção de cereais, por exemplo, cresceu 43% na China e 26% na Índia. Usando o mesmo espaço, a mesma terra, só que de forma mais inteligente. Tudo bem que o cultivo não é orgânico, rolam muitos fertilizantes. Mas eles investiram em culturas múltiplas e plantio consorciado (quando várias espécies são plantadas juntinhas e misturadas, o que aumenta o rendimento do espaço e enriquece o solo). Também começaram a usar irrigação subterrânea, que, se implementada direitinho, economiza até 60% de água.

E te digo mais: essa notícia boa é uma tendência mundial, tá? O Brasil também vem aumentando a produtividade de alimentos com um manejo mais sustentável do solo, sem precisar desmatar mais para produzir mais e melhor. Não, o agronegócio não é toooodo ruim (pros animais lógico que sim, mas não necessariamente pro meio ambiente. Lembra que nada é uma coisa só?). A parte moderna do setor (principalmente a exportadora) segue as leis e entende a importância da sustentabilidade porque quer continuar crescendo – e sem um ambiente equilibrado isso não rola – e continuar vendendo – e sem a ficha limpa os outros países não compram. O que atrasa o Brasil é o agro retrógrado, ilegal e cheio de ligações na politica (muito mais do que as empresas privadas).

Pra finalizar, dois alertas necessários para não esquecermos que, mesmo com a Terra ficando mais verdinha por ações paliativas de alguns países, temos um trabalho grande pela frente, e cabe a nossa geração assumir essa responsabilidade:

O aumento global na produção de alimentos, mesmo que feito da forma mais sustentável possível, depende totalmente da irrigação das águas subterrâneas. Se essa água acaba, a comida também. E a Índia, por exemplo, já sofre há um bom tempo com o risco iminente de uma crise hídrica nacional. Para evitar isso, a gente precisa fazer muito mais do que fechar a torneira: precisamos parar de comer animais, porque a pecuária é a atividade produtiva que mais desperdiça água no mundo. Para fazer um quilo de carne bovina, se vão 15 mil litros de água. Isso é o equivalente a 210 banhos de 8 minutos.

E essas áreas verdes que nasceram não anulam os danos causados pela destruição das florestas tropicais e sua biodiversidade única. Nós ainda vamos sentir essas consequências, porque não adianta estragar aqui e consertar lá, né? O mundo é um só e o esforço precisa ser conjunto. A saúde do planeta vai além do aspecto da paisagem – às vezes uma grama é suuuper verde exatamente porque é falsa.

É isso! Sabemos o que precisamos fazer. Mas só com muita esperança (e muito Naveia) conseguimos juntar força e motivação para agir. Por isso é bom falar de boas notícias também. Elas dão um fôlego. Nós precisamos valorizar boas iniciativas para que sejam incentivadas e replicadas. Precisamos de coragem pra mergulhar fundo e de muito foco pra ir direto no problema.

 

“A economia deve submeter-se à ecologia. Por uma razão muito simples: a natureza estabelece os limites e alcances da sustentabilidade e a capacidade de renovação que possuem os sistemas para autorrenovar-se, disso dependem as atividades produtivas. Ou seja, se se destrói a natureza, destroem-se as bases da própria economia.” Alberto Acosta

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