“O canudinho de plástico foi proibido e as pessoas viveram felizes para sempre”. Esse era o final que a gente imaginava para a história do lixo, mas por mais que a arte imite a vida, a recíproca nem sempre é verdadeira.

 

Não tem muito tempo que o vídeo de uma bióloga tirando um canudo do nariz de uma tartaruga tomou a internet, criando uma onda de revolta contra esse utensílio que sempre esteve na boca da galera. No mundo todo, o canudinho descartável convencional perdeu espaço para versões reutilizáveis ou biodegradáveis, enquanto o Rio de Janeiro correu para ser a primeira capital brasileira a proibir os canudos de plásticos em estabelecimentos comerciais. Mas, enquanto a lei aprovada pelo prefeito carioca era aplaudida por ser um passo para um futuro mais consciente, ela também provou ser mais uma peneira para tapar o Sol.

 

Eu sou daqueles que prefere incentivar mudanças para o bem (mesmo que pequenas e imperfeitas) ao invés de descreditá-las por não serem uma solução completa, mas é fundamental entendermos os detalhes que podem fazer com que uma atitude positiva seja ainda melhor. Afinal, ainda tem espaço para o copo meio cheio ficar completo (com leite de aveia e sem canudo).

 

Os canudinhos de plástico já não são tão presentes, mas o lixo ainda faz parte das paisagens do Rio porque a lei combate o produto, não o uso. Transformaram o canudo em um vilão, e colocando ele atrás das grades, criaram a ilusão de que o crime foi extinto, sem perceber que os comparsas continuam soltos pelo mar, na areia da praia ou entupindo bueiros.

 

Para evitar colocar a boca na latinha de cerveja ou no copo de mate, o consumidor exige um utensílio para fazer o meio de campo, e na falta do canudinho, o copo descartável de plástico cobriu a posição. O consumidor que já não se preocupava com seu lixo não se tornou mais sensível à causa ambiental só porque o canudo foi substituído pelo copinho. E como esse utiliza mais plástico para ser fabricado, a soma da lei com a falta de uma campanha de conscientização resultou em mais plástico indo para o meio ambiente.

 

Enquanto o lixo plástico é terrível pelo seu poder contaminante, nem todo lixo é plástico, e até mesmo os canudos feitos de papel ou de materiais biodegradáveis podem poluir. Essas alternativas ao plástico também representam um problema quando não são descartadas da forma correta, já que precisam de uma série de fatores para serem reciclados ou degradados.

 

Na gestão de resíduos ouve-se muito sobre os 3R (reduzir, reutilizar e reciclar), e não é à toa que “reciclar” está por último. Esse é um processo custoso e que, muitas vezes, deteriora o material, e é considerado como último recurso, não como solução geral. E se chegamos nesse ponto, temos que entender como preparar, separar e entregar cada material para a reciclagem para que, de fato, ela aconteça.

 

Além disso, em conversa com um amigo que vive de retirar lixo do mar, pude perceber o quanto essa proibição afeta mais a população de baixa renda, que é a maior parte da cidade. O copo de suco de R$10 vendido no restaurante da zona sul tem os mesmos R$0,10 embutidos no preço que o vendedor de guaraná natural no sinal paga por um canudo para a bebida que é vendida por R$1,50. Em qualquer extremo da desigualdade social carioca, existe a necessidade de educação ambiental e incentivo à práticas responsáveis, e eliminar algo sem apoiar a mudança não tem se mostrado ser solução para nenhum problema.

 

Tanto a extinção do canudinho de plástico quanto a reciclagem vêm como formas de mitigar o problema do lixo no meio ambiente, mas nenhum dos dois é uma bala de prata. Precisamos repensar nossos hábitos e nos adaptarmos às necessidades atuais do mundo. A ordem dos 3R existe de propósito para facilitar a vida: se não quer lidar com lixo, reduza seu consumo, e se tiver que consumir, reutilize o material.

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