Ameaçada pelo crescimento do mercado vegano, a indústria de laticínios vem se esforçando pra frear nossa (r)evolução mundo afora.

 

A última tentativa é a de proibir, por lei, o uso do termo “leite vegetal” nos rótulos. A justificativa? Para os pecuaristas, só pode ser chamado de leite “a secreção nutritiva de cor esbranquiçada produzida pelas glândulas mamárias das fêmeas mamíferas, com a qual alimentam suas crias na primeira fase do desenvolvimento, proveniente de ordenhas ininterruptas”.

Tem razão, não somos leite. Nem queremos ser.

 

Mas, modéstia a parte, sabemos que somos um deleite. E mais do que gostosos, somos movidos pelo propósito de acabar com a exploração animal. A determinação da nova geração assusta a velha indústria do leite, e com razão:

Os leites vegetais, sozinhos, representam mais de 40% de todas as vendas dos produtos à base de plantas no mundo. Nos EUA, a demanda por leite de vaca caiu quase pela metade desde os anos 70. Hoje, 17% dos leites vendidos no país são vegetais e eles já fazem parte da despensa de 60 milhões de casas americanas. Já no Reino Unido, as vendas dos leites vegetais cresceram 30% desde 2015. E entre 2013 e 2016, mais de mil fazendas de leite de vaca fecharam por lá.

 

Os dados apontam para um futuro vegano, mas é importante lembrar que a indústria de laticínios (ainda) é monstruosa e tem poder pra legislar à seu favor. Às custas de um rebanho global de 274 milhões de vacas, ela movimenta mais de 600 bilhões de dólares todos os anos. Enquanto não se aposenta de vez – porque seus “produtos” não têm vez no planeta que estamos (re)construindo – o que a mega indústria pode fazer é atrasar a vida do mercado vegano com o bom e velho lobby político. 

 

Sim, enquanto o Pantanal perde 15% da sua área em um único ano por causa de queimadas criminosas, estamos gastando tempo e recursos decidindo o nome da bebida matinal dos veganos.

 

Por um decreto de 2017 estabelecido pelo MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), nenhuma marca pode usar o termo leite vegetal no rótulo, embalagem, publicidade ou em qualquer forma de apresentação oficial. Podemos dizer que somos bebida vegetal, alimento à base de vegetais, extrato vegetal, bebida obtida a partir do processamento de grãos… leite de soja, amêndoa, castanha, aveia, não. Só o leite de coco tem esse direito porque a Anvisa regulamentou ele lá em 1978.

 

E em 2018 a deputada Tereza Cristina, líder da Bancada Ruralista, presidente da Frente Parlamentar Agropecuária e atual ministra da Agricultura (que currículo, hein), elaborou à pedido da Associação Brasileira de Produtores de Leite (Abraleite) um Projeto de Lei que aprofunda ainda mais o decreto, proibindo também que os “derivados” (como queijo, requeijão, sorvete e iogurte vegano) usem tais nomes. Ela justificou dizendo que “além de criar uma concorrência dos produtos de origem vegetal com os de origem animal, o consumidor é induzido a crer que, ao adquirir um produto de origem vegetal, está ingerindo alimento similar ao leite de mamíferos”. Será que alguém pensa que a aveia foi ordenhada?

 

O foco aqui é o leite vegetal (ops, desculpa! Bebida à base de plantas), mas vale à pena mencionar que o deputado federal pelo PSL e produtor rural em Mato Grosso, Nelson Barbudo, aproveitou o projeto da Tereza Cristina pra tentar proibir as “carnes vegetais”. Ele quer que termos como bife, hambúrguer, filé, bacon e linguiça, por exemplo, sejam restritos à “tecidos comestíveis de espécies de açougue, englobando as massas musculares, com ou sem base óssea, gorduras, miúdos, sangue e vísceras, podendo os mesmos ser in natura ou processados”. E é o mercado vegano que quer enganar o consumidor, né.

 

Aí a gente pensa que o problema é o Brasil, com tantos políticos mal-intencionados, agronegócio a mil… mas não, esse assunto é global. Inclusive, a ministra da Agricultura usou como base de seu PL o regulamento da União Européia, que proibiu lá em 2013 expressões como leite, queijo, iogurte e whey vegetal nos 27 Estados-membros. Na França é ainda mais rígido: até vender hambúrguer vegano com esse nome é ilegal.

 

E agora mesmo, no final de outubro, o Parlamento Europeu decidiu que produtos veganos não podem usar comparações e sequer fazer referência a qualquer característica dos lácteos nas embalagens. Termos como “bebida de amêndoas cremosa”, “alternativa 100% vegetal ao queijo”, “bebida de aveia estilo iogurte”, “proteína vegetal alternativa ao whey”, “pasta de tofu amanteigada” terão que ser excluídos dos rótulos e até de menus de restaurantes. Sim, bem doido.

 

Essa regulamentação excessiva veio com a intenção de dar um bom prejuízo ao mercado veg. Como as marcas serão obrigadas a indicar seus produtos veganos com expressões totalmente desassociadas dos laticínios de origem animal, elas vão precisar alterar o marketing, a publicidade e toda a rotulagem.

 

Mas todos sabemos que termos como “requeijão de soja” ou “iogurte vegetal” não enganam nem prejudicam o consumidor. A informação é clara. O que prejudica quem tá começando a optar por esses produtos é não ter uma referência na hora da compra. A Associação Médica Europeia e várias empresas gigantes e nada veganas – mas que estão investindo pesado nesse mercado – como Unilever, Danone e Nestlé se posicionaram contra a decisão do Parlamento, argumentando que “designar os produtos vegetarianos como alternativas aos produtos originais, e não com nomes completamente diferentes, ajuda o consumidor a perceber o sabor e a textura desse produto”. Pois é, ninguém compra manteiga de amendoim pensando ser de vaca.

 

Nos EUA, a Federação de Produtores de Leite tentou criar uma lei pra que os leites vegetais fossem obrigados a escrever “imitação de leite” nas embalagens. Mas lá o projeto não passou porque a Justiça entendeu que o termo “leite vegetal” não engana o consumidor. Afinal, por lei, todos os produtos devem vir com a tabela nutricional e os ingredientes em ordem decrescente na embalagem, explicando exatamente sua composição. Essa sim é uma lei importante.

 

As pessoas não compram produtos à base de plantas por engano, pensando que aquilo é feito com secreção mamária de vaca. Compram porque estão repensando seus hábitos e querem uma alimentação livre de crueldade animal, melhor para o planeta e mais saudável para o corpo.

 

A revolução do leite é vegetal e logo mais a indústria de laticínios não vai ter como chorar pelo leite (de vaca) derramado. Enquanto esse momento não chega, nós vamos continuar consumindo nosso “alimento à base de vegetais” e dizendo não, obrigado, para o “líquido secretado pelas tetas das fêmeas dos mamíferos por meio de ordenhas ininterruptas”.

 

Referências:

Projeto de Lei nº 10556, de 2018

Decreto nº 9.013, de 29 de Março de 2017

Frente Parlamentar da Agropecuária – Resumo Executivo do PL 10556/2018

Sistema Brasileiro do Agronegócio – “Projetos de Lei querem proibir rótulos como “carne vegetal” e “leite de soja” em produtos brasileiros”

Compre Rural – “Palavra leite em rótulo de produtos à base de vegetais será proibido”

Vox – “Fake milk: why the dairy industry is boiling over plant-based milks”

Good Food Institute – “Europe’s proposed Veggie Ban contradicts EU sustainability goals and defies consumers”

Safe Food Advocady Europe – “NGO’s address the proposal to ban the use of terms such as veggie burger in the EU”

Washington Post – “EU considering ban on veggie burger and other meaty terms for plant-based food”

The Guardian – “Battle over EU ban on veggie burger label reaches key vote”

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