Se você abrir meu diário de 2001 (7 anos), vai descobrir que, além de eu namorar o Rafael mas secretamente amar o Fernando, queria ser política “pra tentar ajudar o mundo, tornar a condição dos outros seres melhor e fazer a paz reinar” – eu conto ou vocês contam?

Da onde veio minha “consciência ambiental”, eu não sei, mas eu sei que dos 8 aos 12 anos fui bem chatinha: reclamava quando viajava de carro porque a gasolina poluía o ar, dormia com a luz apagada mesmo morrendo de medo do escuro, brigava com a casa inteira por causa da torneira aberta. Isso era o que eu entendia sobre proteger a natureza na época.

 

Num dos desabafos com o meu diário, escrevi:

“sou muito ligada à natureza, amo todos os seres e não permito maus tratos. Sou muita certa com essa coisa de energia e água…

só que, ao invés de me influenciarem a falar disso pros outros, de continuar assim, não… reclamam!”

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Num passeio a uma fazenda com a família, a gente queria ver um lobo guará: “mas o único jeito era dar galinhas pra ele comer, e eu comecei a protestar. Eba! Não as mataram!”. Só que de noite o nosso jantar foi frango à milanesa. Minha cabeça pifou. Algo não fazia sentido naquela situação mas eu ainda não conseguia entender exatamente o que.

Numa viagem pros EUA (reclamava de viajar de carro mas lógico que pra ir pra Disney de avião não tinha protesto, né? Enfim, a hipocrisia) e visitei o Sea World. O relato no diário foi: “vi o show das baleias e odiei muito. Elas tinham que estar soltas. Tchau”. Na escola, briguei sério com uma colega que pisou de propósito numa formiga. Eu fiz um enterro pra ela e decidi que não queria mais me relacionar com humanos. Por um tempo, meus melhores amigos foram o pinheiro e o manjericão que eu plantei.

Mas chega uma hora que fazer patrulha e se revoltar contra o mundo cansa. Pequena, eu achava que minha obrigação era alertar e consertar o que os outros faziam de errado. Um pouco mais velha, percebi que eu não era (e não sou) ninguém pra dizer como cada um deve agir. Você pode até ter a melhor das intenções, mas sua crítica só vai ser construtiva se você apresentar, junto dela, a solução pra tal problema. Se souber mostrar um outro caminho. Senão, você só vai afastar todo mundo. Eu vi isso na prática e entendi que era mais importante olhar pra mim, focar nas minhas atitudes e torcer pra que elas servissem de exemplo pra alguém.

Com uns 13, 14 anos comecei a resgatar animais abandonados com minha mãe. Já foram mais de 200 cães e gatos tirados da rua, levados pra casa, tratados e doados. Algumas histórias simples e outras doidas, como cachorros jogados pela janela do carro exatamente na minha frente. (Sim, isso aconteceu 4 vezes comigo e sim, eu sei que atraio.) Ainda temos mais de 20 animais em casa (todos velhinhos e doentes, porque esses nunca são adotados), catamos 6 kg de cocô por dia (eu pesei pra trazer a info aqui), gastamos muito mais do que poderíamos pra manter todos bem (alguns só podem comer comida especial, outros precisam fazer acupuntura, todos tomam remédios diariamente, alguns são diabéticos…). A gente se vira nos trinta pra cuidar de todo mundo e manter a sanidade mental. Temos uns surtos aqui e ali, mas tudo vale a pena quando vemos aqueles rabinhos abanando em segurança.

E foi o mundo da proteção animal que me levou a conhecer, aos 14 anos, o veganismo. Eu acompanhava algumas ONGs internacionais que faziam o mesmo trabalho que eu e minha mãe (só que numa escala muito maior e com muito mais experiência) pra aprender com elas. Um dia, perguntei pra coordenadora da escola se eu poderia passar em algumas salas pra falar sobre abandono de animais pros meus amigos. Ela liberou e lá fui eu. Ninguém deu muita bola, mas tudo bem. Até que um menino falou “ah, pelo amor de deus. Tanta criança morrendo de fome na África e você aí preocupada com bicho.” Nooooossa. Aquilo ali me deixou fervendo de raiva. E eu queria poder dizer que sim, mas não: eu não dei nenhuma resposta inteligente, superior e elegante. Eu só chamei ele de idiota com a garganta travado querendo chorar.

Naquela tarde eu resolvi escrever um e-mail pra diretora do PETA (Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais), uma das maiores ONGs do mundo, desabafando, perguntando como eu deveria lidar com essas situações e o que mais eu poderia fazer. Uns erros de inglês aqui e ali, mas enviei. Nunca imaginei que ela fosse ler, mas em poucos minutos recebi uma resposta. E o que ela escreveu foi incrível. Me senti abraçada, aliviada. Senti, pela primeira vez em muito tempo, que eu não estava sozinha. Entendi que era normal se frustrar, mas que eu precisava transformar isso na minha força motora pra não perder o foco. Só que o final do e-mail … ah, o final do e-mail me pegou. Ela escreveu algo como:

“Você acompanha nosso trabalho com o resgate e tratamento de animais de rua, mas você conhece os outros braços da ONG? Nossa missão vai além de salvar “pets” (tipo cães e gatos). Nós buscamos justiça e respeito por todos os animais: os que são explorados como entretenimento, os que são mortos pra virarem pele e os que matamos pra comer. Eles também sentem, sofrem e merecem ser amados, mas ninguém os vê. Nós somos a voz deles.”

E pronto, minha cabecinha pifou. Voltei pra cena da fazenda, lembrei da galinha que salvei do lobo-guará e do frango à milanesa que jantei de noite. E os pontinhos conectaram. Parece clichê e exagero pra deixar a história mais bonita, mas juro pela minha gata favorita que é verdade. Tanto que eu não tive transição pro veganismo, foi de uma hora pra outra. 

Os anos foram se passando e eu descobri que o veganismo, além de proteger os animais, é a forma mais efetiva de proteger o meio ambiente. E me apaixonei ainda mais pela causa. Só que me sentia super sozinha no dia a dia – meu manjericão e meu pinheiro tinham morrido e a presidente do PETA tinha mais o que fazer do que ler meus e-mails, né? Fiquei uns bons anos sem ter com quem conversar sobre o que eu sentia que era meu propósito de vida.

Então, em 2013, comecei a usar as redes sociais como uma espécie de diário, só que público. Passei a escrever o que eu sentia e pensava, sem filtro mesmo. Todas as minhas angústias e preocupações com o planeta estavam ali. Comecei a compartilhar todas as pesquisas que eu fazia, todas as informações que eu encontrava, fazia questionamentos e desabafos. Era como meu antigo diário, só que dessa vez todos os meus amigos estavam lendo. E o retorno que eu tive foi sensacional. Mais pessoas, fora da minha bolha, foram chegando pra ouvir, debater e conversar comigo.

E, em 2018, Bolsonaro se elegeu. Beleza, ele é um presidente que foi democraticamente eleito. Mas junto veio Ricardo Salles, nomeado como ministro do Meio Ambiente a pedido da Bancada Ruralista e do próprio Ministério da Agricultura (que é o órgão que o Ministério do Meio Ambiente deveria regular). Aí pegou. Ficou muito óbvio que teríamos problemas ambientais sérios.

Além de desmantelar todos os órgãos ambientais, ele começou a censurar órgãos de imprensa governamentais: o IBAMA e o ICMBio, por exemplo, foram proibidos de se manifestar publicamente sem antes submeter todas as informações ao próprio Salles, pra ele decidir o que poderia ou não ser divulgado. E aí eu decidi fazer minha tese de conclusão de curso sobre ele. Durante 2019, eu só conseguia falar sobre a (má) gestão do Salles. Meu conteúdo no Instagram, na faculdade, no trabalho, todas as minhas conversas… fiquei super monotemática, mas eu não podia deixar de expor tudo que estava acontecendo pro máximo de pessoas possível. Minha criança interior revoltada voltou com tudo. Até que uma hora ele me bloqueou das redes sociais.

 

Junto de mim, bloqueou contas oficiais de ONGs, institutos como o Observatório do Clima e a conta pessoal do diretor do Greenpeace Brasil. Liguei 13 vezes pro gabinete do Salles para perguntar porque ele tinha preferido nos bloquear em vez de debater (afinal, como político ele deveria ouvir as demandas da população, e não dos ruralistas). Tentei em vários horários e dias diferentes, mas ele sempre estava almoçando e nunca me atendeu. Aí comecei a marcar o Instagram do Ministério do Meio Ambiente nas minhas publicações. Também fui bloqueada.

 

Hoje eu entendo que não preciso ser presidente do mundo pra ter minha voz ouvida, tanto que tô aqui, conversando com você e buscando soluções coletivas pro nosso mundo. Eu ainda to esperando o Salles ser exonerado do cargo (acho que ano que vem rola!), mas tem tanta coisa boa acontecendo e tanta gente (da antiga e da nova geração) se engajando no movimento ambiental e vegano que tenho certeza que nosso futuro vai ser bonito. E aqui fica uma sugestão pra você: seja o que for que você acredita, compartilha com as pessoas que convivem ao seu lado e nas redes sociais. Usa essa ferramenta incrível pra propagar o que você acha importante, porque muitas vezes as pessoas só não conhecem sua causa. É através dos exemplos que as coisas mudam e hoje, mais do que nunca, nós todos estamos dispostos. Vamos juntos?

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