Todos os anos, dezenas de produtos alimentícios são lançados com uma nova proposta, promessa e solução – às vezes mágica – pra nossa dieta e saúde no geral. E a cada novo selo estampado nas embalagens, é importante lançarmos também a pergunta: será esse mais um modismo alimentar – uma moda que vai passar – ou uma tendência que tem fundamento e que veio pra ficar?

 


Vou dar um dos exemplos mais emblemáticos: o glúten.

Ele é uma proteína vegetal encontrada em cereais como trigo, centeio e cevada. Muita gente pensa que sim, mas a aveia naturalmente não tem glúten, sabia? Ela pode conter traços”. Isso quer dizer que, durante a cadeia produtiva, ela pode ter passado pelo mesmo lugar que um grão com glúten também passou. E esse aviso é importante para os celíacos (intolerantes ao glúten) mas, para a maioria das pessoas, virou uma confusão.

Há uns anos o glúten foi cancelado com toda a força pela indústria “da dieta” e alimentícia porque, aparentemente, era ele que te impedia de ter uma barriga tanquinho. E aí muita gente, mesmo quem não tinha nenhum indicativo de intolerância ao glúten, começou a cortá-lo da alimentação. E muita gente emagreceu. Isso faz todo sentido porque as comidas com glúten mais consumidas são pizza, pão, massa, macarrão, bolo, cerveja, salgadinho, biscoito industrializado… alimentos ricos em carboidratos, açúcares, gorduras e, portanto, cheios de calorias. Quem pára de comer tudo isso provavelmente vai emagrecer, mas não necessariamente porque cortou o glúten, e sim porque reduziu sua ingestão calórica. Além disso, a nutricionista Juliana Bürger me disse que a maioria das pessoas estão inflamadas de modo geral (pelo alto consumo de produtos animais, estresse, má qualidade da saúde intestinal…) e por isso sentem algumas reações ao glúten, confundindo o que é causa e o que é consequência.

Agora, é lógico que existem pessoas que realmente não podem mesmo comer certos alimentos e não tem nada de modismo nisso. Quando falamos de alergia alimentar, todo cuidado é pouco. Doença celíaca é uma patologia autoimune e não deveria nunca ser aproveitada pra criar mais uma dieta da moda. E se você tem algum sintoma de alergia, sensibilidade ou um distúrbio intestinal, tem que investigar com um médico e nutricionista se o culpado é mesmo o glúten – e aí o cancelamento é necessário.

Nos EUA, 44% das pessoas preferem comprar produtos sem glúten e 65% dos americanos acreditam que uma dieta livre dele é melhor pra saúde. Segundo a Nielsen, só em 2019, as vendas de pães sem glúten cresceram 89,9% no Brasil. Mas “sem glúten” não é sinônimo de mais saudável: uma análise da revista francesa “60 Milhões de Consumidores” concluiu que, comparados às versões “tradicionais”, os alimentos industrializados sem glúten têm muito mais gordura, sal, aditivos químicos e calorias. E também são até 159% mais caros.

 

 


Questão de saúde global

O problema não é consumir o glúten ou não, mas é acreditar de olhos fechados nas soluções milagrosas que, na verdade, não passam de um nicho de mercado criado pela indústria alimentícia. “Ué, Vic, mas leite vegetal também não é um mega nicho de mercado? Muita gente que toma não é vegano e nem intolerante à lactose.”

Sim, muitas pessoas consomem produtos vegs porque estão “na moda” e, ainda bem, cada vez mais acessíveis. Mas é aqui onde eu queria chegar: se a gente cancelou o glúten com tanta força, o leite animal já deveria ter sido banido do mundo porque é questão de saúde global. Olha só:

 

Segundo a OMS, 1% da população mundial têm doença celíaca. Ou seja, por volta de 78 milhões de pessoas. Agora, imagina uma doença que atinge não 1%, mas de 68% a 75% da população mundial.



Pois é, esse tanto de gente tem algum grau de intolerância à lactose, que é quando o organismo é parcialmente ou completamente incapaz de digerir o açúcar presente no leite e seus derivados. Essa intolerância tem um componente genético e alguns grupos étnicos apresentam níveis altíssimos dela: por volta de 95% dos asiáticos, 60 a 80% dos afro-americanos, 80 a 100% dos índios americanos e 50 a 80% dos hispânicos.

A lactase, enzima que digere a lactose, existe em todos os mamíferos filhotes, incluindo nós, humanos. Nosso corpo a produz pra que possamos digerir o leite materno com facilidade. Quando começamos a crescer e a nos alimentar de outras coisas, nosso organismo para de produzir essa enzima porque ela deixa de ser necessária. Quer dizer, deveria deixar de ser… só que nós inventamos de continuar tomando leite depois de adultos. E, pior: leite de outra espécie.

Como qualquer mamífero, a vaca só produz leite quando tem um filhote pra amamentar. Ela não leite naturalmente o tempo todo. Ou seja, a vida dela se resume ao ciclo de ser repetidamente inseminada, gestar, parir e, lógico, ser imediatamente separada de seu filhote. Afinal, se o bezerro beber o leite da mãe, ele não vai chegar nas prateleiras dos supermercados.

O corpo das nossas mães pára de produzir leite assim que não dependemos mais da amamentação. É biologia. Como achamos sensato ingerir durante a vida inteira o leite feito pra um bezerro (que nasce com uns 30kg) atingir o tamanho de um boi em pouco tempo? Como o Guiga disse nesse artigo dele pra Naveia, nós largamos do peito e agarramos nas tetas.

 

 


Intolerância e alergia ao leite de vaca no Brasil

O instituto DataFolha lançou em 2016 a pesquisa “Conhecimento sobre a intolerância a lactose na população brasileira” e concluiu que 35% dos brasileiros com mais de 16 anos sabem que não toleram bem a lactose porque sentem mal-estar logo depois (entre 30 minutos a 2 horas) de terem ingerido um laticínio. Ou seja, só no Brasil 53 milhões de pessoas sabem que passam mal por causa do leite. E muita gente nunca recebeu um diagnóstico médico. Afinal, má digestão, diarréia, náuseas, inchaço, excesso de gases, cólica, dor de estômago e dor de cabeça podem ser tantas coisas né? Quando somamos a essa conta o número de pessoas que ainda não sabem ou nunca saberão que o desconforto vem da ingestão do leite, o estudo conclui que  7 a cada 10 brasileiros são intolerantes à lactose.

E, pior, quando falamos de alergia alimentar, que é uma condição mais severa do que intolerância (porque não se trata de uma dificuldade de digestão, mas sim de uma reação do sistema imunológico contra corpos estranhos), a alergia à proteína do leite de vaca (APLV) é de longe a mais comum: ela é mais prevalente do que as reações ao amendoim, ovos e crustáceos – juntas.

Enquanto a intolerância à lactose surge normalmente na fase adulta (depois que paramos de produzir a enzima lactase), a APLV costuma aparecer nos primeiros seis meses de vida. Os dados de 2014 mostram que, naquele ano, 350 mil crianças no Brasil tinham alergia à proteína do leite de vaca. “Dessas, em torno de 70 mil já tiveram ou terão alguma reação com choque anafilático – que representa risco de morte”.

Essa pesquisa lançada agora, em fevereiro de 2021, feita pelo Grupo Abril e Veja Saúde, com o apoio da Danone Nutricia (sim, essa Danone, fabricante do Danoninho, Danette, Activia e vários outros produtos lácteos) mostra que a taxa de sensibilização ao leite, que é o “primeiro passo” pra desenvolver a alergia em si, cresceu significativamente entre as crianças nos últimos 12 anos.

O estudo também relata que mais da metade das famílias levou pelo menos 3 meses e passou por no mínimo 3 médicos até chegar ao diagnóstico correto de APLV. Além de impactar a vida financeira, a alergia ao leite de vaca dificulta as atividades sociais: desde a ida à escola, que muitas vezes não tem estrutura nem pra oferecer refeições separadas, que dirá pra socorrer reações alérgicas graves (que precisam de injeção de adrenalina) até festinhas e passeios. Afinal, a proteína do leite também pode estar no sabonete, giz, balão de festa, shampoo, lenço umedecido, remédio, etc. Depois disso tudo eu te pergunto: cadê o cancelamento do leite animal?

 

 
A solução do leite “sem lactose”

Com tantos humanos descobrindo que não são bezerros nos últimos anos, as empresas de laticínios precisaram dar um jeito de não perder esses consumidores. E como a nossa cultura era tão apegada ao leite, elas viram que valia à pena vender seus mesmos produtos lácteos… mas sem lactose.

Foi em 1985 que a cientista alimentar, Virginia Holsinger, junto do USDA, conseguiu desenvolver a tecnologia pra fabricar leite e iogurte sem lactose. O selo começou a se popularizar nos EUA em meados dos anos 90. Já o primeiro leite “pra intolerantes” chegou no Brasil só em 2012 e a moda do “sem lactose” explodiu junto com a do “sem glúten”. Do nada, milhares de produtos apareceram com esses selos estampados nas embalagens, e não por uma questão legal (a lei já obrigava que essas informações constassem no rótulo), mas por estratégia de marketing.

Não podemos deixar de reconhecer que é uma evolução da indústria mas, pra mim, Vic, leite sem lactose não faz sentido nenhum. Pra quê insistir, gente? Ah, quem tem alergia à proteína do leite de vaca também não pode consumir e nem entrar em contato com essas versões. A gente sabe que o problema com o leite vai além da lactose.

E o mundo começou a despertar pra isso: de acordo com a Pesquisa de Estilo de Vida da Euromonitor International, quem impulsionou e continua impulsionando o boom dos leites vegetais não são os veganos ou vegetarianos, e sim os “flexitarianos”. Esse termo é usado pra descrever quem segue uma dieta vegetariana na maior parte do tempo e, de vez em quando, come carne. É um vegetariano “flex”.

E é aqui que fica interessante: a pesquisa mostra que, ao contrário dos veganos, o que motiva os flexitarianos a escolherem leites vegetais não são as questões éticas da causa animal ou ambiental, e sim a preocupação com a própria saúde, principalmente a digestiva.

Ou seja, essas pessoas poderiam simplesmente estar tomando o leite animal sem lactose. Mas elas preferiram as versões à base de plantas porque já entenderam que, vegano ou não, um humano não deveria beber o leite de outra espécie – ainda mais depois de adulto. E, com esse pensamento, os “flexitarianos” viraram a força motriz do mercado de leites vegetais.

É provável que muitos deles tenham chegado a comprar produtos sem lactose e, depois de um tempo, decidiram migrar pras alternativas à base de plantas. Por isso eu acho que, quando a indústria de laticínios investiu tanto nas linhas “lac free”, ela acabou – obviamente sem querer – jogando ao nosso favor: é como se os produtos sem lactose representassem um período de transição entre o leite animal e o vegetal. Quem decide cortar a lactose tá muito mais inclinado a experimentar versões vegetais do que voltar a consumir o leite tradicional. Tanto pela saúde quanto pela consciência, que aos poucos vai ganhando forma. E os dados comprovam isso:

A projeção pra 2025 é que o mercado de laticínios atinja U$ 645,8 bilhões, com uma taxa de crescimento de 5,4%. Sim, olhando o quanto movimenta, o negócio é monstruoso e parece invencível. Mas basta contextualizar pra gente ver que não é bem assim:

Em 2025, o mercado de produtos sem lactose pode alcançar U$ 18,4 bilhões, crescendo 8,7% ao ano. Já o mercado de leites vegetais deve chegar a U$ 41 bilhões, um valor ainda pequenininho perto do da indústria leiteira, mas com uma taxa de crescimento que prova que o futuro do leite é vegano: 16,7% ao ano.




O processo é crescente…

Primeiro, pensamos que precisamos do leite animal. Não estranhamos nem questionamos, afinal… sempre fizemos isso, né? Depois, começamos a perceber que aquele mal estar que sentimos quando ingerimos algum laticínio pode ser… culpa do laticínio. Aí decidimos pesquisar sobre isso. Descobrimos que a maioria dos humanos são intolerantes à lactose, mas como vamos viver sem leite? Ainda bem, nessa hora chegam os produtos sem lactose. A moda explode junto com a do “sem glúten” e agora tentamos seguir essa dieta mais limpa. O problema com o leite parece estar resolvido. Mas aí a gente começa a ouvir sobre um tal de veganismo. Lá vem mais um rótulo? É, o selo “vegano” começa a ser estampado em centenas de embalagens, mas diferente dos outros, esse selo carrega um propósito e traça uma discussão profunda sobre ética, não dieta.

Finalmente, os questionamentos que citei ao longo do artigo vêm à tona, muitas tradições perdem o sentido e as práticas horríveis da indústria que permaneciam “ocultas” são reveladas. Beber leite de outras espécies e depois de adultos? Engravidar vacas a força e repetidamente até que elas percam a performance na produção de leite aos 4 anos (enquanto poderiam viver 20) e sejam descartadas pra virarem carne barata? Separá-las de seus  filhotes recém-nascidos pra que eles não tomem o leite e sejam abatidos ainda bebês pra serem vendidos como carne de vitelo?

Financiar a indústria que mais polui, desmata, queima e destrói o nosso planeta, às custas um rebanho global de 270 milhões de vacas leiteiras e outros 70 bilhões de animais abatidos todos os anos? E por que comprar produtos animais que são modificados pra virarem “sem lactose”, que fazem parte desse mesmo problema, se podemos escolher (e até fazer em casa) alternativas vegetais, muito mais saudáveis e livres de sofrimento?




…e o futuro é logo ali

Descobrimos que existe leite de castanha, aveia, amêndoa, arroz, soja… uma variedade infinita de nutrientes e sabores. Pronto. As informações ficam claras, a consciência expande e as práticas se alinham com os valores. Cada pessoa no seu tempo, mas todas nesse caminho. E o futuro é logo ali: segundo o IBOPE, 59% dos brasileiros começaram a incluir alternativas à base de plantas na dieta nos últimos 12 meses. Nos EUA, a demanda por leite de vaca caiu quase pela metade desde os anos 70. Hoje, 17% dos leites vendidos no país são vegetais.

O selo “sem glúten” é assunto sério pra 1% do mundo mas, fora isso, é um modismo que hora ou outra vai passar. O selo “sem lactose” simplesmente não faz sentido… ponto. Já parar de beber leite animal é questão de saúde global porque pode melhorar a qualidade de vida de 75% da população mundial. É questão de preservação ambiental porque o leite de vaca gasta 95 vezes mais água do que o leite de aveia pra ser produzido, por exemplo – você pode ver todos esses dados nesse artigo aqui. E é questão de respeito à vida de todos os seres.

O selo “vegano” indica que aquele produto não leva nada de origem animal e carrega por trás um posicionamento ético e político por um mundo socialmente mais justo e ambientalmente mais preservado.




A diferença no preço atrasa a (r)evolução: por que leite vegetal é tão mais caro?

Porque leite animal tem incentivo fiscal. A bancada ruralista tem uma influência enorme no governo e aí ela faz o lobby que quiser. Não é exagero. Como você pode conferir nesse meu artigo, os pecuaristas conseguiram até proibir que o nome “leite vegetal” apareça nas embalagens de leites à base de plantas. E com os Projetos de Lei 448/20 e 7372/17, os ruralistas livraram os produtos sem lactose de pagar mais de 5 impostos.

Enquanto isso, as versões vegetais pagam 4,7 mais impostos do que as de origem animal aqui no Brasil.

A carga tributária é enorme, é taxada em toda a cadeia de produção e isso impacta no preço final. E, lógico, o mercado acabou de começar a ganhar volume. É questão de tempo, mas tá acontecendo mais rápido do que imaginávamos: segundo o IBOPE, em 2018, 30 milhões de brasileiros (14% da nossa população) já se declaravam vegetarianos e 7 milhões veganos.

Leite vegetal tá longe de ser mais um nicho de mercado.

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1 comentário

  1. […] significativa do mercado de suplementos infantis – você pode ler mais sobre o assunto no artigo “Contém glúten? Contém lactose? Contém confusão.” – Mas, com a explosão do […]

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