O movimento vegano é o que mais cresce, no mundo todo, e junto dele, crescem as desculpas para não aceitá-lo. Mas será que é possível criarmos uma blindagem utilizando bom senso?

 

Em quase uma década de ativismo, o veganismo me proporcionou experiências incríveis, desde navegar os oceanos protegendo golfinhos até entrar em uma favela africana para documentar o resgate de cães de rinha, mas talvez a mais impressionante delas foi conhecer um leão náufrago amante de plantas. Na verdade, eram pessoas que se enxergavam como leões, náufragos ou amantes de plantas para negar o veganismo como uma escolha razoável. Mas não deixe que essa curva na minha narrativa tire seu interesse desse artigo porque, a imaginação criativa dessas pessoas diz muito sobre o quanto a nossa sociedade se esforça para encontrar respostas que nos digam que não precisamos nos esforçar. Espero ter captado seu interesse novamente. Então, vamos lá.

 

Normalmente, ao adotar um estilo de vida vegano, temos a sensação de ter aberto os olhos para uma realidade que sempre esteve na nossa frente, mas nunca se apresentou de forma sincera. Então, sentimos que devemos comunicar essa nova visão a todos, mas somos colocados numa espécie de rodada de testes que tentam provar que o veganismo não é forte o suficiente para ser aceito como uma opção.

 

O primeiro desses testes é o Teste do Leão, e ele tenta nos provar que comer outros animais é natural porque os leões o fazem, mas o que esse teste realmente nos mostra é que o ser humano está disposto a se comparar a um predador natural para justificar nosso consumo industrial. Para passar por esse teste, é preciso lembrar que leões são animais obrigatoriamente carnívoros, ou seja, eles precisam de carne para viver bem. Por conta dessa necessidade, eles evoluíram ao ponto de poderem caçar suas presas de forma natural, utilizando suas garras, dentes, visão e velocidade. Mas listar fatores biológicos que nos diferenciem desses animais, normalmente, não é o suficiente para mostrar que não há nada de natural em pessoas comerem outros animais, então, eu sugiro nos perguntarmos quando foi a última vez que precisamos caçar um animal para nos alimentar. Se a resposta foi “nunca”, vale refletir sobre o que existe de natural em pagarmos para que outras pessoas inseminem animais artificialmente, os alimente com ração, utilizem antibióticos para conter infecções geradas por conta desse processo e os cortem e embalem para que possamos cozinhá-los e servi-los à mesa.

 

Se passarmos pelo Teste do Leão, temos que enfrentar o Dilema da Ilha Deserta. Nessa fase, somos jogados num universo lúdico em que estamos perdidos em uma ilha que só nos oferece uma chance de sobrevivência: comer o animal (sempre uma presa fácil) que sofreu o infeliz destino de ser colocado lá conosco. Para simplificar as coisas, eu digo logo a todos que comam o coitado do bicho e tentem conviver com isso. Afinal, não conheci ninguém, vegano ou não, que conseguisse resolver esse dilema de forma satisfatória a quem o colocou. Essa prova surreal com tantos obstáculos perfeitos só serve mesmo para não pensarmos na verdadeira chance dessa circunstância se tornar uma realidade, tirando o foco da situação atual, em que animais são mortos sem necessidade para saciar a vontade de pessoas ilhadas em suas mesas de jantar.

 

Quando a conversa passa do Dilema da Ilha Deserta, podemos ter a certeza que chegamos no Desafio das Plantas Inteligentes. Esse clássico nos coloca contra nossa ética, apresentando matérias sobre estudos que provam que plantas possuem inteligência, e, por isso, se alimentar delas invalida o movimento vegano. Se proteger as plantas fosse mesmo a preocupação de quem traz esse desafio, o veganismo bastaria como solução, já que utiliza-se menos terra para produzir alimentos à base de vegetais do que a mesma quantidade de alimentos à base de animais. Além disso, os animais criados para essa produção são alimentados à base de vegetais. E é melhor nem entrarmos muito a fundo na questão da inteligência porque se isso fosse mesmo um fator decisivo para escolhermos quem vive e quem vira comida, muita gente estaria em perigo.

 

Por que tentamos tanto criar empecilhos para não fazermos nada de diferente em prol do meio ambiente, dos animais e da nossa própria saúde? Precisamos mesmo nos transformar em predadores selvagens, pessoas perdidas em situações hipotéticas ou ativistas pelos direitos vegetais para negar uma proposta que só visa o bem? Eu prefiro seguir otimista e acreditar que esses testes servem mais para quem os coloca do que para quem os enfrenta.

Deixe um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.